Vulcão Fuego e Acatenango

Diário de Viagem
Abril 2021

Neste momento exitem 3 vulcões em erupção na Guatemala: o Santiaguinho, o Pacaya e o de Fuego.

Organizamos uma subida ao volcán de Fuego ainda em Portugal, depois de uma complexa pesquisa. Tentamos fazer de forma independente mas a subida de jipe é muito técnica e exigente, ao longo de uma estrada privada (finca), com uma taxa de passagem que dissuade os mais aventureiros.

Desde Antígua, demoramos 2 horas até ao ponto em que o jipe não subia mais, a 3200m de altitude. A seguir, esperava-nos uma caminhada de 40 minutos até ao campo base a 3650m, no vulcão Acatenango. A primeira subida, íngreme, já mostrou que precisávamos de caixa para enfrentar a montanha, aumentando a respiração e os batimentos cardíacos.

Estivemos a aclimatizar à altitude em El Paredon, a zero metros da linha do mar… ou seja, exatamente como não se deve fazer. No passado, na Bolívia e no Tibete por exemplo, tivemos o cuidado de passar 48h a 2200m. Aqui deixamos isso de lado e sentimos na pele de imediato, apesar deste primeiro caminho ainda ser de baixa exigência.

Depois de nos instalarmos na nossa tenda e almoçarmos um excelente burrito, começamos a nossa caminhada até ao Fuego, para assistirmos ao final do dia e bem de perto (300metros da cratera em erupção) ao espetáculo de lava e das ruidosas erupções que faziam tremer a majestosa montanha. Neste percurso, a falta de aclimatização tornou-se extremamente evidente. Durante 2h descemos o Acatenango para depois subirmos o cone perfeito do Fuego numa penosa subida.

Foi preciso parar várias vezes para conseguir vencer este obstáculo e o grau de dificuldade fez vir ao pensamento a palavra desistir várias vezes. Mas a tequila José Cuervo que carregavamos na mochila permitiu dar a força adicional para o ultrapassarmos. Fomos o primeiro grupo a chegar mas tivemos o azar das nuvens e o vento frio ter rodeado a montanha. Durante 30 minutos ouvíamos as erupções mas não víamos nada. O frio imenso fez-nos desistir e iniciar a descida. Passados 10 minutos, o milagre aconteceu e a montanha apareceu à nossa frente com uma visibilidade perfeita e as consecutivas erupções, expelindo lava incandescente, deixaram-nos desarmados, num espetáculo único e inesquecível.

Ganhamos nova energia e voltamos para bem perto da cratera, numa zona ainda segura. Não há palavras suficientes para descrever o momento. A sensação que temos é que nem parece real, os nossos sentidos não têm recetores suficientes para absorver tanta beleza e informação.

O cansaço dissipou, tal como as nuvens. Esquecemos por momentos que tínhamos de voltar tudo para trás.

Depois de mais um trago de tequila, iniciamos a descida. Os joelhos cediam, os pés escorregavam na gravilha de pedra pomes. Por vezes as mãos tinham que ajudar. O corpo por vezes vacilava e foi necessário recuperar o fôlego algumas vezes. Atrás de nós, um espetáculo de erupções sucessivas e violentas, já noite cerrada. É um espetáculo a ser assistido durante a noite, durante o dia não se consegue ver a lava incandescente. Quando chegamos à nossa base, esperava-nos o mais incrível chocolate quente que bebemos nas nossas vidas. De café e cacau percebem eles, estamos rendidos.

Jantamos sentados num banco corrido de madeira de frente para o vulcão, a assistir de camarote a todo o espetáculo de luz e a sentir a montanha a estremecer. A canja de galinha e a fogueira atenuavam os – 5°C que se faziam sentir mas não venceram o frio e pouco depois, mesmo perante este nível de espetáculo, tivemos que nos abrigar dentro da tenda e dos saco-cama para normalizar a temperatura corporal. O sono chegou rápido.

Durante a noite, os estrondos da montanha acordaram-nos várias vezes. Através da tenda conseguíamos ver a montanha pintada de lava. Sentimos a montanha estremecer debaixo dos nossos corpos. A Natureza mostrou-nos o seu poder assustador. O Fuego tem estado mais ativo nos últimos 3 anos, antes tinha apenas 1 erupção por dia, agora uma a cada 15 minutos. Em 2018 infelizmente vitimou mais de 400 pessoas com a sua nuvem piroclástica incandescente que desceu a montanha velozmente.

Não foi uma noite fácil, quando o céu aclarou saltamos para ver o nascer do sol de um dos pontos mais altos da Guatemala. Do nosso lado esquerdo tínhamos o majestoso vulcão de Agua, atrás o pequeno Pacaya a expelir grandes quantidades de cinza, que têm paralisado o aeroporto da cidade da Guatemala e em frente o Fuego com as suas constantes explosões violentas. Depois do pequeno almoço tradicional com ovos e pasta de feijão, iniciamos a descida a pé até ao carro. Já não parecia tão fácil, o corpo já reclamava o tempo todo.

As melhores coisas da vida não são fáceis, o Fuego é duro e recomenda-se! É inesquecível!

O chão estremece. Olhamos para cima… É um cone perfeito. A nuvem de cinzas projeta as pedras incandescentes pela montanha abaixo… a erupção de um vulcão faz-nos sentir pequenos, desarmados. Por momentos sentimos o fervilhar do sangue da mãe Natureza. O seu poder, a sua imensidão. Deixamos de lado qualquer preocupação ou pensamento. O corpo humano é uma máquina incrível e o instinto reconhece desde logo o perigo. A adrenalina é libertada no sangue e o cérebro otimiza todos os sentidos, todos os recetores, numa só direção. Mesmo assim, parece irreal. O nosso corpo não tem recetores ou capacidade de processamento suficientes para este momento. Infelizmente somos uma máquina limitada.

Nada na vida nos prepara para uma erupção vulcânica. Ensinam-nos na escola os diferentes tipos de vulcão, sobre magma, rochas vulcânicas, nuvens piroclásticas. Ninguém fala dos sons, dos cheiros ou da intensidade da explosão, da onda de choque que causa, do estremecer de toda a montanha. Mesmo que falassem… Nada nos prepara para isto.

O cair da noite traz a intensidade da cor. A lua permite distinguir a silhueta da montanha e naquele instante, tudo se ilumina. A montanha sangra, o tom alaranjado da lava ilumina por completo o cume e a lava é projetada em todas as direções. A seguir, o silêncio. Por vezes consegue ouvir-se o som metálico do mar de magma dentro da cratera. O som demora a chegar.

Pela noite dentro, a intensidade das erupções faz estremecer o nosso corpo frio deitado dentro do saco-cama. O som desperta. O instinto faz-nos recear e questionar se estamos seguros ali deitados tão perto. Os guias estão tranquilos, voltamos a adormecer até à próxima explosão.

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