Kirkuk

Julho 2021

A noite foi difícil. Acordei inúmeras vezes com calor, com dores de costas, com o pó no ar que circula no quarto empurrado pela ventoinha. O ar permanece denso e poeirento. Pouso a cara no lençol e sinto o pó. Molho os lábios e sinto o pó. Inspiro e sinto o pó. Suspiro. É preciso aguentar.

A manhã chega bafienta. Nem o duche nos salva do calor. As cortinas laranja dão um ar ainda mais quente ao quarto e o ambiente roça o erótico. Parece que temos um filtro laranja nos olhos. 

Descemos para o pequeno almoço na esperança de sentir alguma frescura. Mas as portas estão abertas e o calor avança sem vergonha. Comemos e saímos em direção à Samarra. Parece que a cada dia que passa está mais calor e ao vermos a previsão do tempo confirmamos as nossas suspeitas.

Conduzir aqui é uma aventura. Não há regras. É possível conduzir com qualquer idade, sem carta, com álcool, sem cinto, enquanto se fala ao telefone… Se a estrada tem 2 faixas, é porque cabem 5 filas de carros e motorizadas. Em cada buraco cabe um carro.

Não se usa pisca, a buzina serve para avisar que vamos passar, nas rotundas toda a gente e ninguém tem prioridade. Há carros em contra mão, até da polícia, só porque é mais prático do que dar a volta. O caos chegou aqui e morreu aqui. Mas basta avançar e vais te desviando dos obstáculos à medida que estes vão surgindo.

Quer sejam carros, tuk-tuks, motas ou pessoas a atravessar a estrada aleatoriamente, tu desvias-te, sem travar. Se travares, batem-te por trás, porque colado ao teu carro está outro a tentar furar. Buzina! Eles sabem que estás aí. Desviam-se e abrem espaço para ti. Avança! Sem hesitar, sem medo. Só travas nas lombas não sinalizadas e nos buracos na estrada (os mais difíceis de prever). 

Paramos para meter gasolina e aparece logo um miúdo a vender pastilhas elásticas. “La, shokran!” (não, obrigada!) Mas ele insiste… Devem ser boas, ele acredita no seu produto porque não nos larga. Os homens olham para mim, não estou de burka. Nem imagino o que devem pensar de mim.

Seguimos caminho. A meio, o ar começa a ficar cada vez mais quente… Perdemos o ar condicionado… Estamos perdidos! Paramos para ver o que se passa e o ar é cada vez mais infernal. Temos de trocar de carro… Fazemos 30km e um primo do tenente Abdul vem ter connosco para nos emprestar o carro dele.

São os piores 30 km das nossas vidas. O ar queima a pele, é impossível respirar. Tentamos abrir as janelas para ver se ajuda, mas não conseguimos decidir se assim é ou não. O suor acumula-se por toda a pele. As mãos suam, os braços ficam molhados, nas costas sentimos fios de água a escorrer.

Isto é o inferno. Roça o insuportável. Não sei quanto tempo mais consigo aguentar. Não tenho outro remédio, mas é doloroso. Uno as mãos, palma contra palma, para não as queimar. Consigo aguentar mais uns minutos assim. Toda a minha pele está vermelha. Sinto-me a cozinhar… Conto os segundos para a meta.

O tempo não passa. São 30 minutos de dor. “Aguenta, aguenta, está quase.” Só que não está. Ao longe vemos o carro verde escuro do primo do Abdul – o paraíso. Está mais calor dentro do carro do que lá fora. Surpreendentemente, é um alívio sair do carro, pela primeira vez nesta viagem. Ao entrarmos no carro novo, e ao sentirmos o ar fresco na cara, quase chorei de emoção. Voltamos à estrada, desta vez indolor.

Mais check points atrás de check points, que nos deixam mais tranquilos.

Tentamos entrar em Samarra. Não deixam. Dizem que não é possível. Sabemos mais tarde que a cidade está fechada. Os estrangeiros que entraram, não podem sair. Não se sabe por quanto tempo.

Chegamos a Kirkuk 4h mais tarde e tivemos a terceira melhor refeição cá. A primeira foi peixe grelhado, a segunda foi o joelho de cordeiro cozinhado a baixa temperatura e este cordeiro cozido na própria gordura com o pão típico daqui ensopado neste caldo está um sonho.

Fomos beber o chá tradicional a um café onde os locais jogam dominó como profissionais. Batem com as peças na mesa para serem mais dramáticos e fazem bluff. Recebem-nos com a cortesia clássica de cá e não nos deixam pagar. Dizem “welcome” e levam a mão direita aberta ao peito. Já reconhecemos este gesto como um agradecimento sentido e devolvemos o carinho.

Visitamos o castelo que nos oferece a vista perfeita sobre a cidade e terminamos o dia a provar um doce típico maravilhoso e com o Diogo a receber prendas dos iraquianos enquanto experimenta roupa militar, coletes para granadas, capacetes artilhados e armas falsas. Diversão garantida, enquanto decorre a devida sessão fotográfica.

Amanhã são os 40 anos dele e espera-nos um dia único.

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