Jodhpur

Novembro 2016

Às 16h00 voltámos para o carro e partimos em direção a Jodhpur, a cidade azul. Todos o indianos se revoltaram contra o governo e decidiram ir para a rua mostrar a sua revolta, o que fez com o que o transito ficasse ainda pior do que o normal. Todos os carros e camiões apitavam sem parar, demonstrando a sua ira. Era ensurdecedor! O Mr. Boss decidiu então fazer a estrada secundária para nos poupar ao trânsito e tentar chegar mais cedo a Jodhpur. Foi uma viagem horrível, cheia de solavancos, calor e apanhamos trânsito de qualquer forma… Eu ainda consegui fechar os olhos e dormi durante 2h00 das 4h30 que demorou a viagem. Quando acordei já era de noite e o Diogo estava cheio de dores de costas e decidimos trocar de lugar para ele se estender no banco de trás e dormir um pouco.

Depois de uma viagem de 3h30 até à cidade do festival de camelos, (em vez das 2h30 que nos tinham “prometido”) deparamo-nos com um cenário apocalíptico de pobreza, sujidade e camelos, no meio de um deserto seco e debaixo de 35 graus à sombra! Camelos a perder de vista preenchem as nossas fotos e os nossos sorrisos.

Tendas de múltiplas cores, acampamentos com pessoas a dormir lá dentro, rodas gigantes, balões de ar quente, camelos, cavalos (onde havia também a apresentação dos cavalos vencedores de prémios, lindos com pelo sedoso e bem escovados), tendas de vendas de todo o tipo de artigos e tours ao deserto, viagens de camelos, de cavalos, venda de snacks e comida… Parece um festival dos anos 60, tipo flower power, com rastas, charros, chinelo no dedo e panos à tapar o corpo. E camelos! Camelos, camelos, camelos por todo o lado!!

Quando chegámos ao nosso destino, nem queríamos acreditar! A cidade é enorme, mas só Old Town é que é azul e é bastante pequena, o resto da cidade, fora da muralha, tem cores normais nas construções. Mas como ainda era noite, nem deu para ver muito bem. O nosso motorista lá nos deixou o mais perto do hotel possível (carros não entram na Old Town) e apanhámos um riquexó até ao hotel. No entanto, nem o riquexó consegue ir à porta do hotel e tivemos de andar uns 50 metros. Tranquilo!

O nosso hotel é todo cor de sangue por fora e azul por dentro. As pessoas são muito simpáticas e dão o seu melhor para nos sentirmos confortáveis. Começamos logo a falar com eles e ofereceram-nos umas cadeiras para nos sentarmos. Depois de alguma conversa, explicaram-nos algumas regras do hotel, nomeadamente os horários do restaurante e onde ficava, deram-nos a pass da net e mostraram-nos o nosso quarto, que fica no último andar com vista para o grande forte da cidade no topo da montanha, todo glorioso e imponente, ao estilo senhor dos anéis! Fantástico!!! Mais uma excelente escolha!

Fomos jantar ao rooftop do hotel e o dono acabou sentado ao nosso lado, a conversar connosco sobre o mundo e inevitavelmente sobre o Trump e as eleições americanas. Tínhamos acabado de chegar quando vimos na net o resultado das eleições e todos os comentários pelo mundo fora sobre o assunto. O nosso primeiro comentário foi “Qual vai ser o nosso destino de eleição para fugirmos quando a terceira guerra mundial rebentar?”…

É assustador saber que há pessoas neste mundo, neste século, e depois de toda a história mundial, nomeadamente a Alemã, capazes de eleger para presidente de uma potência mundial como são os Estados Unidos, um homem desta espécie. É capaz de ser o único capaz de acabar com a guerra fria em que vivemos, mas outros problemas daqui advêm e ninguém sabe qual será a repercussão que isso terá no mundo. Este será o dia conhecido por “o dia em que o mundo mudou” e nós nunca nos iremos esquecer que estávamos em Jodhpur quando a bolha rebentou! Houve o 11/9 e agora aconteceu o 9/11… 

Eu até acho que era previsível isto acontecer… O próprio Trump (que em 1998 chamou os americanos de estúpidos e previsíveis) previu que ia ganhar as eleições, quando se candidatasse como republicano, porque sabia mover multidões e a multidão é emocional! Enfim… Triste! É como nos sentimos!

Passámos por ruas estreitas com algumas paredes pintadas de azul e outras cor sangue, com o lixo está todo “entalado” num canto das ruas, com os varredores de rua a recolher mais lixo, mulheres a varrer a rua (e atirar o lixo para a frente do vizinho), miúdos a fazerem xixi para a rua, salpicando os pés de quem passar perto, cães a vasculhar o lixo à procura de comida e vacas a dormir tranquilamente em cima dele!

Quando passámos por este cenário, vem um cheiro horrível que não pica no nariz mas sim no cérebro e dá vontade de vomitar mas em vez disso apressámos o passo para um lugar (mais) seguro.

Tínhamos combinado com o Mr. Boss irmos trocar as nossas notas ao banco. Ainda tentámos ir ao western union, para tentar fazer um depósito numa conta em Portugal, mas não aceitavam depósitos, só levantamentos. O problema é que temos cerca de 39 notas de 1.000 rupias e em cada visita ao banco, eles só nos deixam trocar 4.000RI por pessoas, isso significa que temos de lá ir 5 vezes para trocarmos tudo o que temos… Que grande seca!

Lá trocámos as 8.000 rupias e fomos tomar o pequeno almoço a um sítio recomendado pelo nosso motorista. Meu deus! Que cenário pós-guerra, com toalhas que já não veem uma lavagem há anos, cheias de manchas escuras e pó, tudo sujo inclusive as paredes, cadeiras meias partidas e desengonçadas, muito mal frequentado e com comida muito fraca.

Lá comemos o mais rápido que conseguimos e fomos embora para ir ver o grande Forte no topo da montanha! Parece um grande castelo medieval e a qualquer momento nos parece possível ver grandes cavalos a saírem pelas grandes portas pesadas de madeira e donzelas a acenar das altas janelas para quem parte para as batalhas.

Visitámos o museu no castelo encantado, recheado de salas todas trabalhadas, fachadas imperiais e escadarias poderosíssimas e tirámos algumas fotos. Viemos até ao quarto, depois de descermos a colina do forte até ao hotel (10 minutos a pé) e o Diogo aterrou durante 2h00. Eu aproveitei para fazer upload de algumas fotos e almocei no nosso hotel e bebi um mango lassi (feito de iogurte e fruta, dizem eles ser excelente para o estômago) e enquanto saboreava uma deliciosa batata com molho de tomate, caril cominhos e coentros e um arroz com sementes de cominhos.

Não podia estar melhor! Uma vista maravilhosa para a cidade azul, a torre do relógio que se ergue no meio das ruas decadentes, tecidos coloridos que voam pelo ar a secar, o forte altivo que parece inclinar-se nas nossas cabeças, cheiro a caril, cominhos e coentros e um céu azul… Mágico!

Fomos dar mais uma volta pela cidade e acabámos por comprar um turbante como souvenir de Jodhpur. Num laranja bem forte, como vemos nos homens santos, viemos todos lampeiros e felizes para o restaurante recomendado pelo nosso hotel. O restaurante do nosso hotel é excelente, mas quisemos experimentar outro para termos outra perspetiva da cidade. Fomos jantar, quero dizer, fui jantar, com o Diogo a fazer-me companhia, porque não quis jantar e voltamos para o quarto ao som dos cânticos árabes que duram a noite toda, tornando-a meia encantada.

Não podia deixar de falar um pouco do nosso motorista, um senhor com barba cinza e turbante umas vezes rosa e outras laranja, com um sorriso simpático. Logo na primeira vez que nos conhecemos, ainda em Delhi, às 5h00 da madrugada, ele tentou dizer o nosso nome, mas são tão difíceis para ele que ele “batizou-nos” de Sweetie e Mr. Peter. Como o nome dele também era difícil de pronunciar, ele também levou com o nome de Mr. Boss, porque estava sempre a dizer que nós devíamos fazer as coisas como ele achava melhor. Bastante mandão, mas para tentar mostrar-nos o melhor dentro do pouco tempo que tínhamos.

Ele lá nos foi mostrando o que havia de melhor para ver e com o seu bom humor foi preenchendo os espaços vazios das nossas conversas com o Shivram. Quando deixámos o Shivram em Agra e começamos a viagem para Jaipur, ele lá se soltou e começou a ficar cada vez mais engraçado e chegou a dizer uma ou outra piada mais “picante”, nomeadamente disse que eu era Sweetie e que me podia comer… Ele lá se riu, mas nós não gostamos lá muito da piada e não comentámos. Eu acho que não foi com essa intenção…

Sempre que podíamos dormíamos durante a viagem e ele lá nos acordava quando estávamos a chegar. É um senhor com os seus 60 e tal anos, sikh, com barba comprida e (diz ele) com cabelo maior do que o meu. Para nós os dois podermos dormir, vamos trocando de posições, entre o lugar da frente o banco de trás e sempre que eu vou à frente e o Diogo está a dormir, ele fala muito mais e vai-me elogiando. Em Jaipur, vimos uns macacos com o rabo cor de rosa e ele deu-me logo uma sapatada no rabo e riu-se como um perdido.

No último trecho da viagem, a caminho de Udaipur, queria segurar na minha mão, agarrava-me o queixo e dizia que eu era “a very nice lady”, toca-me no cabelo e diz que é um “very soft hair”, pediu-me um beijinho e disse que eu tinha mãos pequenas e macias.

Quem me conhece bem, sabe que eu detesto que pessoas estranhas me toquem e isto tudo deixa-me bastante desconfortável, já para não dizer que fico completamente sem jeito quando me elogiam… nunca sei bem o que dizer e fico super vermelha. Disse logo ao Diogo que não ia mais à frente porque não é uma situação confortável para mim.

Quando nos despedimos, ele disse para nós o elogiarmos ao patrão dele, mas nós nunca mais vamos ver o patrão dele, mas dissemos “Yes! Yes, of course!” Demos uma gorjeta de 1.000 rupias e viemos embora.

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