Babylon

Julho 2021

“Não aguento, não consigo respirar!”

O calor é tanto que queima os olhos. É como se nos estivessem a meter dentro de um forno. O ar é espesso, seco, escalda e queima a pele. A brisa que corre bate em nós como o bafo da porta de um forno ligado que se abre na nossa direção, bate no asfalto e faz ricochete ao nosso corpo.

É insuportável. A temperatura chega aos 50°C à sombra dizem que é 70° ao sol… Mas parece muito mais. São 9h da manhã… Dentro do carro temos ar condicionado, mas no banco de trás o ar já chega quente. 

Despedimo-nos de Baghdad para rumarmos a sul até à Babilónia. Num dos muitos check points de controlo ao longo do caminho perguntam se somos xiitas ou sunitas. Não, somos portugueses. Pedem o passaporte e dizem que vão procurar o nosso cadastro no computador. “mas não vão encontrar nada, somos portugueses…” deixam-nos avançar.

Sorriem sempre, agradecem levando a mão direita aberta ao peito. Perguntam sempre se somos jornalistas e para que canal de tv trabalhamos. Não há turistas por aqui e é estranho estarmos aqui. Não sei para quem será mais estranho, se para eles ou para nós. 

Pela janela do carro, resguardados pelo ar condicionado, vemos planícies de palmeiras, que abanam com o vento. Dão uma sensação de frescura que nos faz esquecer o verdadeiro calor que se acumula com o passar das horas. 

Sempre que se abre a janela, o inferno consome o ar morno que habita connosco. Custa a entrar nos pulmões. “fecha rápido a janela, por favor…” Sair do carro é um pesadelo. É como andar sobre brasas. Ao esticar a mão, o ar queima, o vento pesa e faz estalar a pele. 

É preciso vestir leve, tecidos finos e frescos. Mas a verdade é que nem nu uma pessoa aguenta. Dou por mim a pensar como é que as mulheres andam de burka preta com este calor. Vejo mulheres todas tapadas, de preto, olhos, mãos… tudo. Debaixo do sol, deste sol. Este sol que não é igual ao nosso, que é muito mais forte, entra por todo o lado e consome. 

Não há sombras nas ruínas da Babilónia. Chegamos às 10h30 e o guarda pergunta quanto tempo temos para explorar e, à sombra de uma palmeira, o meu cérebro diz “não aguento, não consigo respirar” mas o coração manda e sai-me um “todo o tempo do mundo”. Foi a frase chave para o guarda soltar um sorriso e ficar feliz pela nossa disponibilidade emocional.

Isso faz com que ele se entregue mais, que abra todas as portas, que ele conte tudo, que perca mais tempo connosco. Estacionamos o carro à sombra (não é que faça muita diferença) e vemos a réplica da porta de Ishtar, na sua imponência azul que se ergue do chão cor de areia. Compete com o azul do céu e ganha na sua majestosidade. Decorado com flores de camomila (que representam o bem estar, a paz e saúde) e com os dois deuses representados (Marduk – com cabeça de dragão, corpo de peixe, cauda de cobra com o espigão na porta de um escorpião e pés de leão – e Adad).

Ele explica que a construção foi feita com tijolos, alcatrão e bambu para que num possível ataque, quando a estrutura vibrasse, abanasse mas que não caísse. Caminhamos o percurso das procissões do rei Nebuchadnezzar, onde o pavimento era branco, os passeios (para o povo) era vermelho e as paredes azuis. Branco = paz, vermelho = amor, azul = felicidade.

Exploramos o labirinto como se fôssemos o inimigo, sabendo as posições dos guardas e como eles derrotavam quem os invadisse. Paramos no sítio onde o Alexandre o Grande morreu e vimos o antigo sítio onde os Jardins Suspensos viveram outrora. Imaginar tudo isto no seu tempo de glória é fantástico e estar aqui é ainda mais surreal. “Belisca-me para eu acordar deste sonho”.

No topo de uma colina vemos o antigo palácio do Sadam Hussein. Levam-nos até lá. Destruído, grafitado e cheio de lixo é assim que o encontramos. As salas imponentes, com estratégias quer de vistas, quer de construção, que intensificam sons e vibrações, revelam a grandiosidade deste edifício. Deixam-nos percorrer as várias salas, quartos, wcs, cozinhas, varandas… Nem toda a gente tem esta sorte. Há muitas portas fechadas, que se abriram na nossa direção, como um raio de sorte que não tínhamos como agradecer.

Com vista para Babilónia e o Eufrates, espelha a majestosidade que o Sadam ansiava possuir. Ergue-se na colina como se pretendesse patrulhar e controlar toda a planície circundante. Vemos búfalos a nadar no Eufrates e o Diogo pergunta de imediato se podemos nadar lá também ao que nos respondem “why not?”

OK, próxima paragem – Eufrates. Bastou chegar, que foi só tirar a t-shirt e os calções e sentir a água (que achávamos que ia estar fresca) a aquecer um corpo já torrado. Nadar no Eufrates não é para todos. Mas aqui é possível. 

O caminho até Najaf faz-se bem. Ao som de músicas tradicionais, que dão ainda mais drama às vistas, vamos vendo as palmeiras carregadas de tamaras. Dançam com o vento e parece fresco lá fora, mas é ilusão de óptica! Najaf consegue ser ainda mais quente que Baghdad.

O ar é infernal e para visitar a cidade é o Shrine tenho de andar de burka e o Diogo de dishdasha, uma espécie de vestido comprido de uma só cor para homens. Só vendem burkas pretas. Vou descobrir o que sente uma mulher de burka preta com este calor em pouco tempo.

Escolhemos as nossas vestimentas e é incrédulos que nos olhamos ao espelho e vemos refletido um casal que certamente não somos nós, mas sim um casal muçulmano, adorador de Allah. A única coisa que eu posso mostrar é a cara e as mãos. O resto fica tapado pela burka que agora, para além de proteger o meu corpo de olhares alheios, mantém o calor dentro dela como uma manta térmica. O calor entra mas não sai. É com muita dificuldade que conseguimos abrir os olhos.

Comemos um gelado tradicional desta cidade para refrescar os pensamentos. 

Na entrada do Shrine separo-me do Diogo para percorrer a entrada exclusiva às mulheres e ele a dos homens. Depois de uma rápida apalpadela, por questões de segurança, encontramo-nos do outro lado. Tiramos os sapatos, sob as graças de sprays de água espalhados pelo caminho que nos refrescam a alma por breves segundos.

Deixamos os sapatos e câmaras no cacifo e entramos. Semelhante ao Shah Cheragh em Shiraz (Irão), tem as suas paredes revestidas a espelhos quebrados propositadamente e mármore de veios verde água, uma cúpula grandiosa azul com inscrições e no centro está o túmulo dourado do Íman Ali. Reservo alguns minutos apenas para observar. Quero reter tudo. Todos os pormenores. A cor do chão, das paredes, do teto, as estantes de mármore verde com inúmeros Corão para elas lerem, as passagens, as formas, as cores, os reflexos as vozes, os tecidos… Quero memorizar tudo.

As mulheres estão para lá de histéricas. Choram, gritam, dão tudo para passar por cima das outras para tocar, e se possível beijar, na grade prateada que protege o túmulo. Umas gritam, outras choram, outras rezam, outras leem o Corão.

As guardas chicoteiam as mãos das que tentam agarrar a grade com um pau com penas na ponta. Afagam-me a cabeça com isso inúmeras vezes, não sei o que pretendem mas peço para parar, deve estar cheio de covid. Sou empurrada, amassada e apalpada por este rio de mulheres de preto. É ensurdecedor e elas emanam o cheiro típico a suor. Vejo um mar preto com mãos nuas levantadas a pedir ajuda enquanto reclamam os seus pedidos de socorro. É numa escolta de mulheres desesperadas que sou empurrada para o exterior. 

Como tínhamos entrado separados, combinamos o encontro num determinado local. Quando lá cheguei tive de esperar pelo Diogo. Passaram inúmeros caixões para serem abençoados e posteriormente serem levados para o cemitério sagrado local. Casais sentam-se no chão, em tapetes enquanto rezam, conversam ou tomam conta dos filhos.

Eu faço o mesmo. Espero. Está muito calor. Não consigo estar sentada no chão. Levanto-me. Espreito para o interior do templo e vejo os caixões a entrar. Ali perto está um vapor de água, é a minha salvação! Ponho-me lá debaixo. 

O Diogo chega excitado com tudo o que viu, semelhante ao meu sentimento. Traz fotos únicas (ao contrário de mim que não consegui tirar fotos) e vem com aquele brilho no olhar. 

Nunca heide esquecer o que vi e senti.

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