Antártida

Diário de Viagem
Fevereiro 2020
Inclui :  Antartida (Continente), South Shetland, South Georgia & Falkland

Ushuaia

Excitadíssimos com a ideia de que íamos de facto pisar a Antártida, rumamos ao sul até Ushuaia, a cidade do fim do mundo. Ushuaia é uma pequena cidade, rodeada de montanhas, pinheiros, neve e glaciares. Cidade está otimizada para excursões de caminhadas, visitas a lagoas e glaciares, trekking, visitas a colónias de pinguins e excursões à Antártida. Por todo o lado, na rua principal e nas perpendiculares a ela, encontram-se lojas especializadas neste tipo de serviço, assim como cafés, restaurantes e lojas de souvenires. E assim começou a nossa saga de encontrar um barco que nos levasse o mais a sul possível e onde pudéssemos visitar o maior número de destinos disponíveis.

Tínhamos lido que marcar last minute in loco, poderia ser 70% mais barato. Lemos também que haviam barcos que iam diretamente para a Antártida ou barcos que faziam um percurso bem mais atrativo, indo à Geórgia do Sul, Falkland e Antártida. Escusado será dizer que queríamos ver tudo e ir a todo o lado, mas tínhamos perceção que ia ser difícil graças ao valor que custaria. Ao iniciarmos a nossa pesquisa, ficámos logo desanimados porque diziam-nos que o barco mais barato que tinham já excedia e muito o que pretendíamos gastar. Sabíamos que tínhamos de estar no Rio para voltar a casa no dia 13 de Março e quase todos os barcos ultrapassavam essa data, exceto este. Começamos a ficar preocupados… Podia dar-se o caso de termos de abortar a nossa viagem ao continente gelado e sermos obrigados a mudar por completo os nossos planos…

Então decidimos entrar em todas as lojas e varremos todas sem exceção. Até que encontramos a Tolkar Travels, que tinha a oferta ideal e a fazer o percurso que desejávamos. Era um barco de uma companhia chinesa que devido ao corona vírus um grupo enorme de chineses tinham ficado retidos e por isso, surgiram as vagas. Problema?! Chegava a Ushuaia no dia 15, ou seja 2 dias depois do nosso voo para o Porto… Fomos procurar mais lojas e a segunda hipótese que havia era um barco acima do que queríamos gastar, chegava a tempo do voo mas só ia à Antártida, onde passaríamos 8 dias a bordo.

Ponderamos todas as nossas hipóteses:

  • comprar um voo para dia 16, perdendo o voo do dia 13 e consequentemente esse dinheiro, mas ir a todo o lado numa viagem de 15 dias
  • fazer só a Antártida num barco de 8 dias, chegando a tempo do nosso voo mas gastar um pouco mais do que gostaríamos
  • ir embora, esquecer a Antártida e explorar melhor o Brasil e o Paraguai.

Ao fazermos contas, a contemplar o novo voo para casa, ainda compensava e muito o barco de 15 dias. E assim foi! Optámos pelo barco que nos permitia visitar tudo o que queríamos de ver. Assim, no dia 29 embarcamos no Ocean Diamond, juntamente com dezenas de chineses que vivem fora da China! À entrada do barco todas as pessoas passaram por um check up médico para garantir que ninguém embarcava doente. Inspecionaram os passaportes, procurando entradas em países sob quarentena e estando tudo ok, embarcávamos.

Este é sem dúvida o maior barco que já estivemos! É um cruzeiro com capacidade para quase 300 pessoas, com spa, restaurante, bar e tem 7 pisos. O nosso quarto tem wc privado e uma cama de casal e fica no 6° andar. Todas as noites serviam um jantar à la carte e ao almoço e pequeno almoço um buffet livre. Todos os dias tínhamos palestras sobre a vida selvagem, sobre a história dos destinos, sobre segurança a bordo e em terra e sobre técnicas de fotografia.

Conhecemos 11 pessoas incríveis (vindos de Israel, Holanda, México, Polónia, Taiwan, Suíça, USA e Alemanha) com as quais partilhamos refeições, histórias, memórias e com os quais íamos a terra. Era um pagode! E sem dúvida éramos o grupo mais divertido à bordo. Inclusive, a tripulação comentava connosco que a nossa energia era incomparável. Que não tinham tido um grupo tão especial como o nosso. Estávamos sempre na palhaçada, rimos muito, trocamos histórias de viagens e experiências de vida e combinámos um reencontro futuro.

Esta viagem vai ficar para sempre na nossa memória! Não é possível explicar a intensidade deste lugar. As fotos não fazem justiça e nem de perto conseguimos transmitir o que sentimos quando avistamos pela primeira vez a Antártida. Depois de mais de 48h a navegar pelo canal de Drake, com mares difíceis e sem vermos terra, ver os icebergues a aproximarem-se, as baleias a espreitarem o barco, os pinguins a saltarem as ondas ao nosso lado e a massividade das montanhas geladas a quererem engolir-nos, foi sem dúvida inesquecível.

Antártida

Todos os desembarques na Antártica são um desafio! O vento muda a cada 10 minutos e nem sabemos se será possível desembarcar ali. Como éramos quase 200 pessoas a bordo, eles dividiram-nos em 4 grupos e cada grupo foi dividido em grupos de 20. 10 pessoas iam a terra e os outros 10 faziam um cruzeiro num pequeno barco de borracha por 1h30. E depois trocávamos! Isso levava a manhã inteira. Estava tanto frio (cerca de 0 ° C) que vestíamos muitas camadas de roupas, fazendo-nos parecer dois leões-marinhos muito gordos! Mas felizes!

A primeira paragem aconteceu em Paradise Bay e o nome não podia ser mais acertado! Fizemos um pequeno passeio nos barcos de borracha pela baía e vimos pinguins, baleias e focas. Quando pisamos pela primeira vez a Antártida, fomos recebidos por uma pequena colónia de pinguins, que se aproximavam de nós, muito curiosos

Connosco tínhamos os cientistas que nos mostravam os comportamentos e nos explicavam o porquê de se comportarem de determinada forma, que ajudou muito a perceber melhor estas espécies. Tínhamos também um fotógrafo super profissional que nos ia dando dicas de como tirar as melhores fotos, de como editar as fotos e isso fez com que as nossas fotos ficassem incríveis.

Mas o melhor desta viagem foi a interação com os pinguins que vêm ter connosco, sentam-se à nossa beira, brincam connosco, bicam os nossos casacos, tentam perceber o que é um telemóvel e esticam o pescoço a cada som diferente que fazemos. Mas escolher entre estar sentado ao lado de um pinguim ou ter uma baleia a 10m de nós a molhar-nos com o sopro de água e com o olhito dela a espreitar para ver o que nós éramos, não conseguimos decidir… Tudo é muito intenso e cada paragem foi diferente.

Se parássemos por alguns minutos, os pinguins viriam até nós e interagiriam de uma maneira muito especial. Mas tínhamos mesmo de ser pacientes! Demora um pouco … Tivemos que encontrar um lugar para nos sentarmos no chão (com o mínimo de cocó de pinguim) e esperar… No entanto, começamos a ficar impacientes e tentamos nos mudar para outro lugar na praia, mas o truque é mesmo ficar e esperar.

Ele estava a 10 cm de mim, quando veio outro pinguim e parou na minha frente, olhando para mim e para o pinguim como “O que vocês dois estão fazendo?” ° Foi hilário! Então, o segundo chega ao primeiro e o acerta com a barbatana continuamente, tentando muito tirá-lo do meu lado. E “meu” primeiro pinguim saiu, me deixando sozinha com o segundo. ° Ele queria inspecionar minha bolsa seca. E ele quase entrou … Eu estava rindo muito! Então, do nada, ele perdeu o interesse e foi embora, me deixando em paz. ° Por outros 15 minutos, nenhum pinguim esteve perto de mim. Como as pessoas estavam ao meu redor, levantei-me e procurei outro local, onde estaria sozinho. ° Era impossível … Nesse momento, metade dos convidados do barco estava na praia e estávamos todos sentados com pinguins ao nosso redor.

Georgia do Sul

Avistamos a Geórgia do Sul no início da manhã, o sol estava brilhando e tivemos a sensação de que chegamos a um lugar onde mais alguém já chegou. Ao redor do navio, baleias sopram, pinguins nadam em grupos, focas pulam para fora da água. A quantidade de vida neste lugar é incrível. A raça humana está quase em extinção aqui. Apenas 25 pessoas ficam aqui (cientistas) na principal “cidade” Grytviken durante todo o ano. Todas as outras espécies, milhões delas, estão prosperando e, finalmente, temos uma ideia de como seria a Terra se não fôssemos a espécie dominante.

Quando nosso barco Zodiac chegou à praia rochosa, fomos recebidos por uma enorme quantidade de pinguins e focas. Muitos pulando fora da água e chegando perto para nos verificar, outros esperando para chegar perto quando estávamos em terra. A equipe da expedição quase teve que pedir permissão para dar um passo atrás e nos permitir pousar. Todos querem se aproximar e nos checar.

A evolução deu aos pinguins uma excelente visão subaquática para capturar as presas, mas eles são míopes e precisam chegar muito perto do foco. ° Eles são bem grandes (+ – 1 metro de altura), emitem sons estranhos e andam em pequenos grupos. Dá a sensação de que estamos realmente chegando a um planeta diferente, cercado por seus habitantes. No verão, os pinguins vão para a estação de acasalamento, reunindo-se nas principais colônias. Durante o inverno, eles vivem principalmente na água, descansando em icebergs.

Tentem imaginar como é chegar a essas “cidades” alienígenas.

Na segunda paragem da Georgia do Sul fomos recebidos por uma colónia de cerca de 320.000 pinguins, a maior colónia de pinguins rei do mundo, mais as crias! A Baía de Santo André é a maior colônia de pinguins-rei do mundo todos a gritar (além das focas e dos pássaros) porque o som é a característica mais importante para se encontrar na multidão. Víamos pinguins até onde o olhar alcançava, até perder de vista e um som ensurdecedor de diferentes sonoridades que pairava sobre as nossas cabeças. Os machos e fêmeas têm sons distintos e as crias também. E as focas e os pássaros participavam no concerto! Estava uma neblina baixa e o topo das montanhas estava coberto pelas nuvens, o que fazia com que não se visse o fim da colónia.

Machos e fêmeas compartilham igualmente a paternidade. Depois de irem ao mar buscar comida para o filhote, eles começam a fazer o seu som para encontrar o filhote e o parceiro. Os filhotes são extremamente exigentes e crescem muito rápido. A chance de sobrevivência aumenta com a quantidade de comida que eles comem. Antes do inverno, eles precisam passar por um período de jejum durante a troca de penas para se tornarem à prova d’água e caçarem sozinhos.

Se parássemos uns minutos, os pinguins vinham ter connosco e interagiam de uma forma muito especial. As focas são mais difíceis e comportavam-se como cães. Se passássemos muito perto, rosnavam e tentavam medir forças connosco e se nos distraíssemos podiam até morder. Aconselharam-nos a ficarmos em grupo, a fazer barulho caso se aproximassem, nunca fugir a correr mas sim enfrentar fazendo-nos parecer maiores e mais barulhentos. Tínhamos de estar atentos! Rimos muito com as reações das pessoas… umas fugiam com medo, delas, outras escondiam-se atrás de amigos, outros faziam sons tipo monstro das bolachas, outros pareciam mais o exorcista, outros pássaros a abanar as asas e a gritar na direção das focas… um filme de comédia!

Mas o mais engraçado era o comportamento delas… Vinham super agressivas e quando nós lhes rosnávamos de volta, ficavam super confusas e fugiam a sete pés! Então, olhavam de volta para nós muito espantadas como quem diz “não era suposto isto acontecer… Que bicho é este?”

Não conseguimos explicar, nem por fotos, nem por palavras, quanto os pinguins-rei são engraçados e mágicos! Quando desembarcamos na praia, eles vêm até muito perto para tentar entender quem somos nós, ficam por alguns minutos, mas perdem o interesse ou ficam assustados se mexermos as mãos (e às vezes até a cabeça) e fogem.

A maneira como andam é engraçada, os sons são engraçados, quando se chateiam é engraçado. Mas a maneira como eles cuidam de seus ovos, a maneira como nadam, a maneira como olham para nós e interagem connosco, a maneira como imprimem o som de seus filhotes antes de irem ao oceano para caçar comida para saber quem são quando eles voltaram é demasiado mágico para se explicar!

E então, quando estávamos a voltar para os barcos, vimos este pobre pinguim coberto de sangue. Ele não se mexeu, mas ainda estava vivo. Isso traz-nos de volta à realidade, depois de passar dias com pinguins selvagens, abstraímo-nos que eles pertencem a uma cadeia alimentar, de alguma forma … Foi triste presenciar este momento, mas é a vida … Os animais têm que comer.

No século XX, depois que Thomas Cook descobriu a ilha, ele retornou à Inglaterra anunciando a enorme quantidade de focas que tinha visto. Depois de alguns anos, os caçadores chegaram à ilha e quase levaram à extinção todas as espécies de focas da ilha (o pelo era excelente para produzir roupas). Depois disso, os baleeiros vieram e fizeram o mesmo com as várias espécies de baleias. A economia vence sempre…

A natureza destrutiva da espécie humana venceu novamente.

Depois de terminar com quase todos os seres vivos, todos eles foram embora. Atualmente, a Grytviken é a prova dessa triste parte da história. Mas a natureza sempre vence e hoje em dia o número de animais é ainda maior do que antes da chegada dos homens.

Em que lugar do mundo você pode estar em um lugar onde os seres humanos são uma espécie em extinção?

Bem-vindo à Geórgia do Sul e às Ilhas Sandwich.

Falkland/Malvinas

O nosso último destino desta viagem foi Stanley, uma vila nas Falkland, numa típica pequena cidade inglesa. Esta passou por uma guerra nos anos 80, entre a Argentina e Inglaterra, pela reclamação do território. Esta “luta” dura até aos dias de hoje, em que ambos os países reclamam de alguma forma o território, sendo que a Inglaterra chama às ilhas Falkland e a Argentina, Malvinas.

Em Stanley encontramos a terceira espécie de pinguins, os Magalhães, que muito pacientemente esperavam na praia que o pelo velho caísse para poderem voltar ao mar.

Aqui, foi o primeiro sítio onde existia internet e foi aqui que descobrimos que o mundo estava na luta com o Covid-19, tendo se já espalhado pelo mundo inteiro e morto milhares de pessoas.


Antártida – como ir (mais barato)

Primeiro passo:

A primeira coisa a fazer antes de ir para Ushuaia, é contactar uma agência de viagens situada em Ushuaia para vos informarem das últimas ofertas disponíveis, para não correrem o risco de irem lá e não existirem ofertas que vos agrade. Nos links úteis (acima) encontram 3 links (Tolkar, Pinguinos e Quark) que vos podem informar sobre estas ofertas.

Segundo passo:

Comprar o voo para Ushuaia uns 3 dias antes (há caminhadas que podem fazer, lagoas, montanhas e tours disponíveis para se fazer nesta região) e no dia certo estar no sítio marcado para esta grande aventura!

Existe Couchsurfing na cidade, não há Uber, mas o táxi do aeroporto para o centro custa cerca de 5€ e as refeições rondam os 10€ – 12€ por pessoa.

Ushuaia – Formas de deslocação

O táxi custa cerca de 5€ do aeroporto para o centro. Não existe Uber.

Ushuaia – Onde comer

As refeições rondam os 10-12€ por pessoa. A melhor refeição que tivemos foi no Restaurante Moustachio, onde comemos um borrego assado num forno de lenha, cozinhado de forma muito tradicional.

Dicas e pontos de interesse em Ushuaia

  • Glaciar Martin – pode-se caminhar por conta própria, sem ser num tour.
  • Museu do Fim do Mundo
  • Comboio do Fim do Mundo
  • Nos Pinguinos ou na Tolkar podem informar-se sobre tudo o que existe para fazerem.
  • A cidade tem muitos pontos com wifi, quase todos os restaurantes e cafés têm wifi, apesar de algumas vezes funcionar muito lentamente.

Dicas para a Antártida

  • Ao marcarem a expedição para a Antártida ter em atenção o itinerário (os sítios a não perder são as South Shetland e a South Georgia), a duração da viagem, se passam o círculo polar antártico, se pisam o continente ou se só vão a ilhas que pertençam ao continente, quantas pessoas vão estar a bordo, o que está ou não está incluído no preço (nomeadamente a roupa de neve e botas, de preferência antes de saírem de casa).
  • DRONE – para voar um drone na Antártida e nas ilhas South Shetland, South Georgia, South Sandwich, etc é necessário uma autorização específica, que pode demorar cerca de 6 meses a obterem.
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